Aos 85 anos, a empresa cresce na esteira do novo marco do saneamento básico, testa a venda de uma estação doméstica no Mercado Livre e reorganiza a operação.
O saneamento básico entrou em um novo ciclo de obras no Brasil. Concessionárias ampliam redes de água e esgoto, mas milhões de casas continuam longe dessas estruturas.
Esse intervalo abriu duas frentes para os fornecedores: atender os projetos das empresas do setor e criar saídas para os pontos onde os canos não chegam.
É nesse espaço que a Tigre, fabricante de tubos e conexões fundada em Joinville, em Santa Catarina, tenta crescer. A companhia fornece peças, tubulações e estações de tratamento para concessionárias e passou a testar a venda direta de um sistema doméstico de tratamento de esgoto pelo Mercado Livre.
A aposta ocorre enquanto a Tigre completa 85 anos e encerra uma reorganização iniciada após a chegada de Luis Felipe Dau à presidência, em outubro de 2024. A empresa saiu de países onde tinha pouca escala, deixou de fabricar caixas d’água, reduziu estoques e passou a cobrar toda semana o resultado de cada unidade.
“Nosso desafio não era encontrar oportunidades de crescimento ou de melhoria. Era priorizar essas oportunidades e executar com disciplina”, diz Dau.
Antes de chegar à Tigre, Dau construiu a carreira em empresas como Whirlpool, Embraco, McKinsey e Ambev.
Engenheiro eletrônico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com MBA nos Estados Unidos, ele trabalhou e morou no Brasil, China, Itália e Estados Unidos.
Nos próximos anos, a companhia pretende concentrar recursos no saneamento, nos mercados em que já ocupa espaço e na operação dos Estados Unidos. No Brasil, o plano passa por vender desde os tubos usados nas redes das concessionárias até equipamentos que tratam o esgoto dentro de uma casa, um condomínio ou uma cidade.
Da fábrica de pentes aos tubos de PVC
A empresa nasceu como uma fábrica de pentes e mudou de rumo na década de 1950, quando apostou nos tubos de PVC para a construção civil.
A Tigre começou em 1941, quando João Hansen Júnior comprou uma pequena fábrica de pentes chamada Albano Schmidt. Na época, pentes e adereços eram feitos com chifre de boi.
Em 1947, a empresa passou a usar acetato de celulose, um tipo de massa plástica. A mudança que definiu o rumo do negócio veio no início dos anos 1950, quando Hansen conheceu o PVC, sigla para policloreto de vinila, em uma viagem ao exterior.
As tubulações usadas nas construções brasileiras eram feitas de ferro galvanizado ou cobre. O ferro enferrujava, acumulava resíduos e exigia roscas, soldas e ferramentas pesadas. O PVC era mais leve, não sofria corrosão e podia ser instalado com adesivo.
O novo material encontrou resistência. Para abrir mercado, Hansen visitava obras e ensinava encanadores a instalar os tubos. A empresa deixou os pentes e concentrou a produção em tubos e conexões.
Oito décadas depois, a Tigre tenta repetir parte daquele roteiro. Em vez de convencer o encanador a trocar o ferro pelo plástico, agora precisa mostrar a consumidores, condomínios e concessionárias que uma estação compacta pode tratar o esgoto onde a rede pública não chega.
Uma estação de esgoto para cinco pessoas
A UNIFAM trata até 800 litros de esgoto por dia e começou a ser testada em venda direta ao consumidor pelo Mercado Livre.
O produto usado nessa aposta é a UNIFAM, uma estação individual de tratamento de esgoto lançada em 2023. O equipamento trata até 800 litros por dia, volume indicado pela Tigre para uma família de cinco pessoas.
O sistema usa um processo biológico com presença de oxigênio para tratar os resíduos. Segundo a companhia, ele reduz a formação de lodo, não exige caminhão limpa-fossa e substitui fossas sépticas.
“A UNIFAM foi criada para a última parte do saneamento, onde a rede não chega porque o custo para levar essa rede se torna alto”, diz Dau.
Até agora, o equipamento vinha sendo usado sobretudo em condomínios, obras e projetos de concessionárias. Em 2026, a Tigre começou a testar outro canal: a venda direta ao consumidor pelo Mercado Livre.
O teste coloca um produto de infraestrutura ao lado de itens comuns do varejo digital. O comprador pode ser o dono de uma casa em área rural, um morador de uma região urbana sem coleta de esgoto ou o responsável por um condomínio.
Fonte: EXAME/FIESC
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